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  www.lanceiros.web.pt - a 1ª pagina da Policia do Exercito na Web - Morte ou Gloria

Mouzinho de Albuquerque
 
Carta Inédita de Mouzinho de Albuquerque a sua
Alteza o Príncipe Real D. Luiz de Bragança.
 
 

     Meu Senhor

     Quando Vossa Alteza chegou à idade em que a superintendência da sua educação tinha que ser entregue a um homem houve por bem El-Rei nomear-me Ayo do Príncipe Real» Foi Sua Majestade buscar-me às fileiras do Exercito. Não escolheu por certo o militar de mais valor mas simplesmente aquele a quem uma série de acasos felizes mais ensejo dera de provar que sabia, custasse o que custasse, obedecer ao que lhe era ordenado e que também sabia, doesse a quem doesse, fazer cumprir as ordens que dava.
     Não por certo a Vossa Alteza como filho e como súbdito e menos a mim como soldado compete apreciar e criticar as determinações d'El-Rei. A Vossa Alteza como a mim deu Sua Majestade uma ordem, a ambos nós cumpre obedecer-lhe e nada mais. Mas para bem lhe obedecer não basta ver-lhe a letra, é necessário estuda-la, entenda-la, descortinar-lhe o espírito. Escolhendo um soldado para vosso Ayo que fez El-Rei? Subordinou a educação de Vossa Alteza ao estado em que se acha o paiz. N'esta época de dissolução, em que tão afrouxados estão os laços da disciplina, entendeu Sua Majestade que Portugal precisava mais que de tudo de quem tivesse vontade firme para mandar, força para se fazer obedecer. E como ninguém pode ensinar o que não sabe, o que não tem praticado, foi El-Rei procurar o Vosso Ayo à classe única em que se encontra quem obedeça sem reticências e mande sem hesitações.
Por esse motivo o primeiro dos meus deveres é fazer de Vossa Alteza um soldado. É Vossa Alteza Príncipe, há-de ser Rei, ora Príncipe e Rei que não comece por ser soldado é menos que nada, é um ente hybrido cuja existência se não justifica. Há poucos anos andava pela Europa, num exílio vagabundo de judeu errante, um Imperador que num momento de crise esqueceu que o seu título vinha do latim Imperator. epitheto com que se saudavam os vencedores, e que se não vence sem desembainhar a espada – sine sanguine victoria non est - Por um erro igual já subio um Rei ao cadafalso e outros foram despedidos do trono para o exílio sempre doloroso e humilhante. Príncipe que não for soldado de coração, fraco Rei pode vir a ser.
     O que foram na verdade os Reis primitivos? Guerreiros audaciosos que os companheiros d'armas levantaram nos escudos acima das suas cabeças. E o que foi o maior d'entre os Reis, aquele cujo nome ribomba como um trovão na história deste século? Um militar ambicioso que, elevado ao Império pelos seus soldados, não se deu por contente enquanto não pôs o pavez que o levantara em cima das costas dos outros Reis da Europa que lhe ser viram de pés ao throno. E entretanto, a despeito da sua incomparável grandeza d'animo, a despeito das qualidades únicas de mando com que a Providencia o dotara, talvez para castigo de muitos, por certo para exemplo de todos, caiu esse colosso e o grande Imperador foi derrubado por esses mesmos que tanta vez vencera. Faltava-lhe a tradição da Monarchia, da linhagem Real, que cimenta e consagra a autoridade dos Reis legítimos.
Mas nessas mesmas linhagens Reais só foram grandes os que souberam lançar mão da espada sempre que lhes foi necessário, Por isso, repito, primeiro que tudo tem Vossa Alteza que ser soldado.
     Aprenderá a sê-lo na história de seus avós. Este Rei no é obra de soldados. Destacou-o da Espanha, conquistou-o palmo a palmo um príncipe aventureiro, que passou a vida com a espada segura entre os dentes, escalando muralhas pela calada da noite, expondo-se à morte a cada momento, tão queimado do sol, tão cortido dos vendavais como o Ínfimo dos peões que o seguia. Firmou-lhe a independência o Rei de boa memória, que tantas noites dormiu com as armas vestidas e a espada à cabeceira, bem distante dos regalos dos Paços Reais. E, para a formação da Vossa Casa, concorreu com ele o mais bravo dos seus guerreiros, que simbolizou e resumiu em si quanto havia de nobre e puro na história Medieval, um herói e um santo. Mais tarde o Príncipe Perfeito, depois de haver mostrado que sabia terçar lanças em combate como o melhor dos cavaleiros, depois de haver abatido de vez todas as cabeças que se erguiam por demais altivas perante a Coroa Real, deu pela força da sua vontade de ferro um impulso de tal ordem às nossas naus que foram ter ao Cabo da Boa Esperança, abrindo a Portugal o caminho por onde chegou ao apogeo da glória. Soldados se lhes pode bem chamar a estes porque tiveram o desapego da vida, a força no mando, a obediência cega aquilo que acima de tu do deve imperar nos Reis – a ideia fixa e pertinaz da glorificação do seu nome e da grandeza do Reino onde Deus os fez os primeiros d'entre os homens.
     Para não ser injusto nem ingrato não deve Vossa Alteza lembrar-se somente dos felizes porque nem só eles foram solda, dos. Houve um Rei de Portugal, que, não podendo ser vencedor, soube morrer herói. Não tendo alcançado a vitória ambicionada, procurou a morte gloriosa. "A liberdade Real só se perde com a vida" foram as últimas palavras que se lhe ouviram e do cativeiro infamante salvou-o a morte, única libertadora invencível porque não há algemas que prendam um morto. Errou é certo, mas a morte de valente, expiatória e heróica, redime os maiores erros. Bem merece ele o nome de soldado, bem estudada e meditada deve ser a sua História porque pelo estudo e pela meditação se formam as almas e a alma dum Príncipe para tudo deve estar temperada, até para as maiores desgraças.
     Soldado também e como poucos foi D. Pedro IV. Trabalhou e combateu como soldado e teve a audácia precisa nos lances decisivos, a resignação estóica nas mais dolorosas crises, a presença de espírito nas situações mais difíceis, a decisão rápida e pronta para aproveitar as vitórias. E tanto se lhe enraizaram na alma os brios de soldado que, quando se viu insultado, apupado sem poder desembainhar a espada que tão bem o houvera servido, estalou de dôr. As chufas com que o populacho cobarde e ingrato lhe pretendeu enlamear a farda foram-lhe direitas ao coração; mataram-no.
     Estude vossa Alteza a história desses seus avôs. Leia-a, releia-a, medite-a, estude-a, meta-a bem na cabeça e no coração. Na convivência deles aprenderá Vossa Alteza a ser como eles forte, justo, simples e verdadeiro. E bem compenetrado do que eles fizeram, conhecendo-lhes a vida dia a dia, sentirá Vossa Alteza que d'Eles vem, que é um d'Eles. Assim sonhará com futuros de glória que se assemelhem a esse passado de grandeza e sonhar assim é uma felicidade e uma força. Triste do homem que só cuida do presente, que só preza a intimidade dos vivos; pobre daquele que precisa adormecer para sonhar com o futuro. No olhar saudoso para o que já passou, no imaginar o que há-de vir se vai formando a alma, se lhe vão apurando as qualidades, desenvolvendo a força. E chegada a ocasião de as aproveitar, de as pôr em acção, cai-se-lhe em cima como o milhafre sobre a presa e não se deixa escapar. A ciência da vida assemelha-se à arte da guerra em que numa e noutra ê mais preciso que tudo aproveitar as ocasiões e para o fazer ê necessário o exercício constante, a trenagem; ora o estudo e a meditação constituem a trenagem do espírito.
     Nasceu Vossa Alteza numa época bem desgraçada para este país. Foi talvez um favor de Deus porque mais na desventura que na felicidade se prova a força do carácter; em todo o caso ê bem certo, meu Senhor, que a Vossa história tem sido muito triste porque, convença-se bem Vossa Alteza de que os Príncipes não têm biografia, a sua história é, tem que ser a do seu povo. Nessa história entretanto há algumas páginas que Vossa Alteza pode ler sem que lhe corem as faces de vergonha, sem que lhe subam aos olhos lágrimas espremidas do coração triturado de humilhações. Essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na história do Portugal contemporâneo escrevemo-las nós, os soldados, lá pelos sertões da África, com as pontas das bayonetas e das lanças a escorrer em sangue. Alguma coisa sofremos, ê certo; corremos perigos, passámos fomes e sedes e a não poucos prostraram em ter ra para sempre as fadigas e as doenças. Tudo suportámos de boa mente porque servíamos El-Rei e a Pátria, e para outra coisa não anda neste mundo quem tem a honra de vestir uma farda. Por isso nós também merecemos o nome de soldados: é esse o nosso maior orgulho.
     Tudo é pequeno neste nosso Portugal d'hoje! 0 mar já não é "curral das nossas naus" mas sim pastagem de couraçados estranhos; foram-se-nos mais de três partes do Império d'além mar e Deus sabe que dolorosas surpresas nos reserva o futuro. Não ti veram, portanto, as guerras em que agora temos andado o brilho épico dos feitos dos nossos maiores. Mas no campo restrito em que operámos, com os poucos recursos de que dispúnhamos, não fizemos menos nem pior do que outros bem mais ricos e poderosos.
     A que devemos este resultado? A que no homem do povo em Portugal ainda se encontram as qualidades de soldado: a resignação, a coragem fria e disciplinada, a confiança nos superiores e, mais que tudo, a subordinação. E é preciso que Vossa Alteza, soldado por dever e direito de nascimento, se possua bem da ideia de que a subordinação é a primeira dentre as virtudes militares.
     Já a tenho ouvido alcunhar de renuncia da vontade. Ora ninguém como o soldado carece de força de vontade porque mais que em coisa alguma se demonstra ela na prática da obediência. Renunciar ao capricho, ao egoísmo, a indolência, a tudo quanto o vulgar dos homens mais aprecia e estima, ter por único fim o ser vir bem, por único enlevo a glória, por único móvel a honra e a dignidade não é renuncia da vontade. E se nós, que somos soldados somente desde o dia em que nos alistámos e podemos voltar à classe civil donde saímos, precisamos para tudo de muito o querer e saber querer, quanto mais um Príncipe para quem nascer foi assentar praça e que só pode ter baixa para a sepultura!
     De vontade e vontade de ferro precisará Vossa Alteza no duro mister para que Deus o destinou. Houve Reis, meu Senhor, que para desgraça dos seus povos adormeceram no trono em cujos degraus haviam nascido e nesse dormir esqueceram a missão que lhes cumpria desempenhar. No fim do século passado o povo francês sacudiu-os de forma tal que os deveria ter acordado para sempre; e, desde então, Príncipe que dormitasse no trono acordava no exílio. Assim deve ser. Castiga-se a sentinela que se deixa vencer pelo sono e o Rei ê uma sentinela permanente que não tem folga porque, nomeado por Deus, só Ele o pode mandar render e então envia-lhe a morte a chama-lo ao descanço. Enquanto vive tem o Rei de conservar os olhos sempre abertos, vendo tudo, olhando por todos. Se nele reside o amparo dos desprotegidos, o descanço dos velhos, a esperança dos novos; se dele fiam os ricos a sua fazenda, os pobres o seu pão, e todos nós a honra do país em que nascemos que ê a honra de todos nós!
Para semelhante posto só pode ir quem tenha alma de soldado. Porque ser soldado não ê arrastar a espada, passar revistas, comandar exercícios, deslumbrar as multidões com os doirados da farda. Ser soldado ê dedicar-se por completo à causa pública, trabalhar sempre para os outros. E, para se convencer, olhe Vossa Alteza para o soldado em campanha. Porventura vê-o só a marchar e a combater? Cava trincheiras, levanta parapeitos, barracas e quartéis, atrela-se às viaturas, remenda a farda, cozinha o rancho e o que tem de seu trá-lo às costas, na mochila. Desde os mestéres mais humildes até ao mais sublime, avançar de cara alegre direito à morte, tudo faz porque o trabalho despido de interesse pessoal entra nos deveres da profissão. Trabalho gratuito sempre porque o vencimento do militar, seja pret, soldo ou lista civil, nunca ê a remuneração do serviço, por não haver dinheiro que pague o sacrifício da vida.
     É assim que, por mais que espíritos desorientados tenham querido obliterar as tradições d'honra do Exercito, a profissão entre todas nobre, foi é e há-de ser sempre a militar por que nela se envolve tudo que exige a anulação do interesse individual perante o da colectividade. E por isso que ninguém como o Rei tem de se esquecer de si para pensar em todos, por isso que ninguém como Ele tem de levar a abnegação ao maior extremo, ninguém como Ele precisa de ser soldado na accepção mais lata e sublime desta palavra, soldado pronto da recruta em todas as armas, instruído em todos os serviços, desde o do cavaleiro que, numa galopada desenfreada, através duma saraivada de balas, vai completar com a carga a derrota do inimigo, até ao do maqueiro que vai buscar os feridos à linha de fogo, ao enfermeiro que deles cuida na ambulância. Tão bom Rei, tão bom soldado foi D. Pedro Y nos hospitais como outros nos campos de batalha, porque a coragem e abnegação são sempre grandes e nobres seja onde fôr que se exerçam e tudo que é grande e nobre é próprio de Rei e de soldado.
     Não faltará ensejo a Vossa Alteza de revelar aquelas qualidades. Não lhe escassearão por certo provações e cuidados, revezes que trazem o desconforto ao espírito, lances dolorosos que desconsolam da vida. Para todos eles carece Vossa Alteza de estar preparado, temperado pela educação, pelo estudo dos bons exemplos, pela firme vontade de vir a ser um Príncipe digno desse nome e do da sua Casa. E para ser Príncipe é preciso primeiro que tudo ser homem.
Se para descanço do Seu espírito vaticinasse a Vossa Alteza un futuro risonho de despreocupações e gozos, faltaria por completo a meu dever. A escolher-me para vosso Ayo disse-me El-Rei - "Faze dele um homem e lembra-te que há-de ser Rei". Proporcionando a Vossa Alteza o conhecimento do que fizeram em Africa os seus mais leais servidores, apontando-lhe como seu exemplo, procurando temperar-lhe a alma para as mais duras provas porque pode vir a passar, não faço mais que cumprir as ordens d'El-Rei e procurar, como o tenho sempre feito, corresponder à confiança de Sua Majestade. A Vossa Alteza cumpre realisar as esperanças de Seu Augusto Pae e nosso Rei, as de todos os Portugueses. Que Deus o guie e proteja nesse difícil e glorioso caminho é o mais ardente voto

Do Seu Ayo muito dedicado.

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